Crianças picuinhas ou neofóbicas?

Ao contrário do que pensa, recusar comer ou experimentar certo tipo de alimentos não é uma mania. Chama-se neofobia (medo de alimentos novos) e é uma condição inerente à esmagadora maioria das crianças.

Sendo assim, é normal que o processo de introduzir novas “comidas” na alimentação seja lento e exija bastante paciência. Está a lutar contra a natureza da própria criança, que vem “equipada” para recusar novos alimentos (a tal neofobia). Mas os pais podem começar a travar esta batalha e a preparar caminho desde o útero.

Sabores e cheiros partilhados

Os estudos que sustentam esta teoria remontam a 1987 (Peter Hepper, Belfast) e foram feitos a propósito do efeito calmante que a canção da série televisiva Neighbours tinha sobre algumas crianças. Durante a gravidez, as mães destas crianças viam religiosamente a série. Após o nascimento, os bebés conservavam esta memória do útero – um local seguro e aconchegante – e sentiam-se mais relaxados quando voltavam a ouvir a música. Nos bebés que não tinham tido qualquer contacto com a série, o efeito era nulo.

O mesmo processo acontece com cheiros e sabores. Estudos paralelos indicam que o sabor e cheiro dos alimentos ingeridos pela mãe chegam até ao feto através do líquido amniótico e que isso irá influenciar a sua memória sensorial mais tarde. Este processo prolonga-se também durante os primeiros seis meses de vida com a amamentação. Aqui, o leite materno substitui o líquido amniótico.

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Em suma, se a mãe tiver uma alimentação variada, rica em diversos tipos de vegetais, legumes, fruta, etc., será provável que o bebé não os renuncie tão facilmente quando começar a comer alimentos sólidos.

A influência dos pais continua a ser fundamental nas fases posteriores. Para além da genética, os gostos e hábitos das crianças também instituídos pelo ambiente que as rodeia. Se virem os pais (e irmãos mais velhos, se os houver) a comer todo o tipo de comida com prazer, terão maior tendência para seguir esse exemplo. Ou seja, não adianta muito querer que o seu filho coma brócolos se ele o vê constantemente a comer pizza e batatas fritas.

Faça das refeições um momento de alegria e partilha. A criança deve, assim que possível, comer à mesma hora que os pais, precisamente para aprender por exemplo e para se sentir incluída. Tudo isto irá facilitar a introdução de novos alimentos.

Brincar com a comida

O contacto directo com a comida é outro factor fundamental nesta questão. Se a criança for às compras com os pais, se lhe for permitido mexer na fruta e vegetais, estes alimentos não serão “objectos” estranhos para ela quando chegam à mesa.

O mesmo se passa com a presença na cozinha. Incentive a presença do seu filho quando está a cozinhar, deixe-o estar rodeado dos cheiros e dos sabores, fazer perguntas, etc.

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Esta postura estende-se também para a mesa. Não deve ser esperado, pelo menos durante os primeiros tempos, que uma criança coma sem se sujar e sem pôr os dedos na comida.

Este contacto táctil, embora não muito agradável para quem tem que limpar a seguir, faz parte do processo de descoberta do bebé. As boas maneiras à mesa são para uma fase posterior.

Acima de tudo, tenha paciência. Em média, podem ser necessárias 7 ou 8 tentativas até a criança aceitar um alimento que desconhece.

Para terminar, deixamos uma lista com mais alguns conselhos:

  • Não use a comida como recompensa, ou seja, não dê doces em troca de comerem vegetais. Isso faz com que uma – os doces – pareça melhor do que a outra – os vegetais – e que só vale a pena comer o alimento “mau”, porque no fim há o alimento “bom”. Use outro tipo de recompensas: uma ida ao parque, um sistema de estrelas que ao fim de X estrelas dá direito a um brinquedo, etc.
  • Não force. Se nas primeiras vezes a criança não quiser comer certos alimentos, deixe-os simplesmente no prato, para esta ir tendo contacto com eles. Se for necessário, deixe que lhes toque.
  • Não permita distracções à hora da refeição. Nada de TV ligada ou consolas. A atenção da criança deve estar focada na comida, nos novos sabores, cheiros e texturas. Aos poucos, a sua curiosidade natural vai ser mais forte do que a neofobia.

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